O relato sobre sua intervenção junto ao governo Fernando Henrique Cardoso para suspender a greve de fome de sequestradores do empresário Abílio Diniz e defender a extradição dos presos pelo crime, nos anos 1990, é a mais recente de uma série de falas polêmicas feitas pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em entrevistas e atos políticos que tiveram repercussão negativa ou foram usadas por rivais para desgastá-lo.

Desde que teve suas condenações anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e voltou à corrida pelo Palácio do Planalto, o petista segue à frente da disputa e se tornou alvo preferencial dos adversários, em especial do pedetista Ciro Gomes e do presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores.

Em meio a conflitos internos na legenda, o PT anunciou em abril que o marqueteiro Augusto Fonseca deixaria o comando da comunicação da campanha. Houve divergência, por exemplo, sobre o tom adotado na propaganda partidária para a televisão. Aliados do secretário do partido, Jilmar Tatto, criticaram o que consideraram ser um Lula muito “protocolar” e “despolitizado” nas peças para a TV. No lugar, foi colocado o publicitário Sidônio Palmeira.

A proposta de regulamentação da mídia e declarações em defesa de regimes autoritários na América Latina, como a Nicarágua, são alguns dos temas já abordados pelo petista e explorados pelos concorrentes.

Relembre algumas das principais polêmicas em torno de declarações de Lula:

‘De vez em quando ainda vaiamos o hino nacional’

No último sábado, 18, o ex-presidente afirmou, durante um ato em Aracaju (SE), que o PT ainda vaia a bandeira do Brasil e o hino nacional “de vez em quando”. Ele comentava as críticas que o partido recebia quando ainda era recém-criado, nas décadas de 1980 e 1990. Contudo, segundo ele, a legenda “aprendeu muito”.

“Eu lembro que, quando o PT nasceu, o Fernando Henrique Cardoso dizia: ‘esse PT vaia até a bandeira brasileira, vaia até o hino nacional’; e nós de vez em quando ainda vaiamos, mas aprendemos muito, porque nós já governamos”, disse.

Sequestradores
Na noite anterior, em Maceió (AL), ao lado do senador Renan Calheiros (MDB-AL), Lula relatou sua atuação durante o governo Fernando Henrique Cardoso para transferir criminosos estrangeiros que participaram do sequestro do empresário Abílio Diniz, ocorrido em 1989.

“Eu fui conversar com o FHC porque eles estavam em greve de fome e iam entrar em greve seca, e aí a morte seria certa; eu então fui procurar o ministro da Justiça, chamado Renan Calheiros (...) Fernando, você tem a chance de passar para a História como democrata, ou como um presidente que permitiu que dez jovens que cometeram um erro morram na cadeia, e isso não vai apagar nunca”, afirmou.

O presidente Jair Bolsonaro e aliados aproveitaram o episódio para tentar associar a imagem do PT e Lula ao crime organizado.

Guerra na Ucrânia

Em maio, em entrevista à revista americana Time, o ex-presidente causou polêmica ao afirmar que o presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, é “tão responsável” pela guerra em curso no país europeu quanto Vladimir Putin, presidente da Rússia. Ele também culpou os Estados Unidos, a União Europeia e o próprio Putin pelo conflito.

“Esse cara (Zelenski) é tão responsável quanto o Putin. Porque numa guerra não tem apenas um culpado”, disse o ex-presidente. “(...) o comportamento dele é um comportamento um pouco esquisito, porque parece que ele faz parte de um espetáculo”, afirmou, em reportagem de capa da revista americana.

Antes da entrevista, em outra ocasião, Lula havia dito que, se fosse no Brasil, o conflito seria solucionado “tomando cerveja”. A declaração causou incômodo na ex-embaixatriz da Ucrânia no País, Fabiana Tronenko.

“A quem interessa essa guerra? A razão dessa guerra, por tudo o que eu compreendo, que eu leio e que eu escuto, seria resolvida aqui no Brasil em uma mesa tomando cerveja. Teria resolvido aqui, senão na primeira cerveja, na segunda; se não desse na segunda, na terceira; se não desse na terceira, até acabarem as garrafas a gente ia fazer um acordo de paz”, disse o petista.

Cercar a casa de deputados para ‘incomodá-los’
Em abril, durante um evento da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Lula sugeriu que seus apoiadores mapeassem o endereço de deputados federais para “incomodar a tranquilidade deles”, pressionando-os com demandas. A declaração gerou forte repercussão entre parlamentares, sobretudo entre apoiadores de Bolsonaro, e ao menos dois deles chegaram a afirmar que pegariam armas de fogo contra o petista e seus correligionários se tivessem suas casas cercadas.

“Fazer ato público na frente do Congresso Nacional não move uma pestana de um deputado”, disse Lula. “Deputado tem casa. Eles moram em uma cidade, nessa cidade tem sindicalista (...). Se a gente mapeasse o endereço de cada deputado e fossem 50 pessoas até a casa dele, não é para xingar, mas para conversar com ele, conversar com a mulher dele, com o filho dele, incomodar a tranquilidade dele. Eu acho que surte muito mais efeito.”

Aborto

Também em abril, Lula defendeu a ampliação do direito ao aborto. O tema, embora se trate de uma pauta levantada e requisitada por movimentos sociais, gerou críticas ao petista por parte do eleitorado mais conservador.

Para o ex-presidente, o aborto deveria ser uma “questão de saúde pública”, já que, segundo ele, escancara as desigualdades sociais da sociedade brasileira. Sem citar diretamente Bolsonaro, Lula classificou a pauta da família e dos valores pregados pelo governo como “muito atrasadas” e utilizadas por “homem que não tem moral para fazer isso”. Bolsonaristas e evangélicos reagiram, embora o petista tenha destacado que sua opinião pessoal seria divergente e que o tema deveria ser abordado como política pública para evitar mortes, em especial de mulheres de baixa renda.

Regular a mídia

Em fevereiro, o ex-presidente voltou a defender “a regulamentação da imprensa” e dos meios de comunicação, um tema que é recorrente em seus discursos. Em entrevista a uma rádio pernambucana, o petista afirmou que é preciso “regular a internet e o sistema de televisão”.

“É preciso que haja regulamentação da imprensa. Você não pode regulamentar a imprensa escrita. Você tem internet para regular, você tem o sistema de televisão. A última regulação no Brasil foi a de (19)62″, argumentou.

Na última sexta-feira, 17, ele tocou no assunto novamente. Criticou uma emissora de televisão que, segundo ele, detém o poder de “distribuir a liberdade”. Possivelmente se referindo à TV Globo, propôs obrigar os canais afiliados da rede a exibirem mais conteúdo regional.

“Uma poderosa rede que distribui a liberdade de meia hora de manhã, meia hora no almoço e meia hora para o jornal da noite. O restante são na verdade canais retransmissores, retransmissor da novela, retransmissor do filme. Por que não pode produzir três horas de programação regional?”, questionou.

Angela Merkel e Daniel Ortega

No ano passado, em entrevista ao jornal espanhol El País, Lula comparou a permanência no poder do latino-americano Daniel Ortega, que está em seu quinto mandato e instalou uma ditadura na Nicarágua, com a da ex-primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, que havia completado 16 anos à frente do país europeu.

“Por que Angela Merkel pode ficar 16 anos no poder e Daniel Ortega não? Qual é a lógica?”, questionou.

A eleição de Ortega na Nicarágua foi considerada ilegítima pela Organização dos Estados Americanos (OEA). O mandatário, no poder desde 2007, mandou prender sete de seus opositores antes que a população fosse às urnas, eliminando candidatos que pudessem ameaçar sua vitória.

Naquela ocasião, o secretário de Relações Internacionais do PT, Romenio Pereira, divulgou uma nota na qual celebrava a vitória de Ortega e classificava a eleição no país como “uma grande manifestação popular e democrática”. O texto também dizia que a eleição era a tradução do apoio da população a um projeto político que tem como principal objetivo a construção de um “país socialmente justo e igualitário” e afirmava que a vitória de Ortega ocorreu “apesar das diversas tentativas de desestabilização do governo e do bloqueio internacional contra a Nicarágua e seu atual governo”.

Policiais

Em encontro com mulheres da zona norte de São Paulo em abril deste ano, Lula disse que o presidente Jair Bolsonaro “não gosta de gente, gosta de policial”. A fala motivou diversos ataques ao petista por parte de adversários nas redes sociais. Dias depois, ele se retratou e afirmou que, na verdade, queria dizer que Bolsonaro gosta “de milicianos”. “Esse cidadão só governa para os milicianos dele”, disse.

Em seu pedido de desculpas, o ex-presidente disse ainda que os policiais “muitas vezes cometem erros, mas muitas vezes salvam a vida do povo trabalhador”. “E nós temos que tratá-los como trabalhadores”, afirmou.

Com informações do Estadão