Créditos: Marcos Vale
O setor de bonelaria do Rio Grande do Norte acumula retração de faturamento estimada em mais de R$ 2,9 milhões com o fim das apostas esportivas e dos cassinos on-line no Brasil, as chamadas bets. Isso porque diversas fabricantes de bonés do estado já haviam recebido encomendas e executavam ou se preparavam para iniciar a produção de peças destinadas, em grande parte, ao Carnaval, com entregas previstas a partir de meados de janeiro de 2027. Os pedidos somavam mais de 500 mil peças. A proibição das apostas foi aprovada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no final de setembro, a nove dias do primeiro turno das eleições.
Uma das fabricantes potiguares mais afetadas é a WRL Bonés, de Serra Negra do Norte. A empresa tinha um pedido de 300 mil peças para a Esportes da Sorte. A encomenda representaria R$ 2,1 milhões em receita e envolveria cerca de 200 trabalhadores, entre empregados da fábrica e profissionais de fornecedores. Segundo a diretora Larissa Almeida, a empresa não dispõe de outros clientes capazes de substituir esse volume de pedidos. “Com a medida [de proibição das bets], nós fomos muito afetados, porque janeiro é um mês de baixa”, afirma.
Larissa Almeida disse que ainda não há um cálculo de quanto os R$ 2,1 milhões em receita previstos com a encomenda representam no faturamento da empresa, mas pontuou que o volume fará falta. Outro aspecto citado por ela é a ausência de novas contratações sem a produção para as bets. “A gente costumava contratar mais pessoas quando recebia esse tipo de encomenda. Agora, não haverá mais essas contratações”, diz.
Outra fabricante fortemente afetada é a DF Bonés e Chapéus. A empresa estima R$ 850 mil em encomendas perdidas, equivalentes a 200 mil peças. A produção estava prevista para começar em novembro, com a participação de cerca de 50 pequenos produtores, mas agora a fabricante busca alternativas para evitar demissões.
As peças estavam sendo produzidas para o Carnaval e o empresário ressalta que os impactos também estão relacionados ao fato de que muitos comerciantes que fornecem tecidos para as confecções já possuíam material em estoque, de olho na demanda para a folia. “Além disso, nós já tínhamos algumas peças para a final do Brasileirão e não sabemos o que fazer. Estamos com essa produção toda parada, mesmo com a matéria-prima em mãos”, conta.
Demissões
O presidente do Sindicato das Indústrias de Bonés e Chapéus do Rio Grande do Norte (Sindibonés RN), Francisco Sena, afirma que não há um levantamento sobre os impactos do fim das bets no faturamento e no mercado de trabalho do setor, mas reconhece que as fabricantes que atuam junto a essas marcas já sentem reflexos importantes. “Existem fabricantes que focaram bastante em produzir para as empresas de aposta on-line. Então, estas, de fato, foram muito afetadas”, destaca.
O presidente avalia que faltou planejamento quanto à proibição das bets, de modo que muitas empresas foram surpreendidas. “Muitas estão de ‘calça curta’. Para se ter ideia, algumas delas recebiam, por ano, encomendas de cerca de 1 milhão de produtos como bonés, viseiras e outros. Então, a cadeia foi atingida, em um ambiente onde o Seridó potiguar é o segundo maior polo de fabricação de boné do Brasil, tendo Caicó como cidade-referência no estado”, afirma Francisco Sena.
Sedec diz que mantém suporte ao setor
A Secretaria de Desenvolvimento Econômico do estado (Sedec/RN) informou em nota que acompanha com atenção os desdobramentos das restrições e adequações regulatórias federais sobre o segmento de apostas e a publicidade associada.
A pasta diz que o principal ponto de atenção está nas indústrias âncoras, mas também na rede de microempreendedores e costureiras terceirizadas que prestam serviços a essas fábricas. “A retração repentina de grandes pedidos tende a gerar ociosidade temporária nessas oficinas menores caso a carteira não seja rapidamente recomposta”, pontua a nota.
Para a secretaria, “embora o cancelamento gere uma fricção de curto prazo no fluxo de caixa das empresas diretamente contratadas, o ecossistema regional possui flexibilidade técnica para redirecionar a capacidade produtiva a outros segmentos comerciais”.
A Sedec destacou que para resguardar a atividade industrial e a manutenção dos postos de trabalho na região, o Governo do Estado disponibiliza uma rede de suporte institucional e financeiro, que inclui linhas de crédito e capital de giro por meio da Agência de Fomento do RN, incentivos fiscais como o Proedi, além de articulações com o Sistema S e a Federação das Indústrias para consultorias sobre prospecção de mercado, adequação de portfólio de produtos e inserção em redes nacionais de fornecimento.
Com informações de Tribuna do Norte


